Investir em transporte público é responsabilidade fiscal: 80% dos gastos com deslocamentos vão para o transporte individual, causando prejuízos

O Brasil ainda vive um tremendo contrassenso em relação às prioridades na área de mobilidade e as políticas públicas ainda privilegiam o que causa prejuízos e não incentivam o que pode melhorar a qualidade de vida e reduzir gastos públicos.

É o que mostram os resultados do mais recente Sistema de Informações da Mobilidade Urbana, estudo promovido pela ANTP – Associação Nacional dos Transportes Públicos, com dados de até 2014.

Segundo levantamento, divulgado nesta semana, com base em dados oficiais do poder público, do sistema de saúde e dos operadores de transportes, por causa do incentivo ao transporte individual, os automóveis realizam mais deslocamentos nos principais centros urbanos, porém transportam menos pessoas, percorrem distâncias menores, custam mais e causam mais gastos para a reparação de danos ambientais e relacionados a acidentes, além de poluírem muito mais.

Os carros foram responsáveis por 31% das 64,1 bilhões de viagens realizadas em um ano numa amostra de 468 cidades com realidades diferentes. O transporte coletivo respondeu por 29 % e o transporte não motorizado por 40%. Os deslocamentos a pé e de bicicleta também sofrem com o descaso nas políticas públicas, apesar de responderem pela maior parte dos trajetos.

Os transportes públicos foram responsáveis por 57% e o transporte individual por 31% dos 440 bilhões de quilômetros percorridos em um ano.

BRASIL GASTA MAIS E FICA MAIS DOENTE PELO TRANSPORTE INDIVIDUAL:

O incentivo exacerbado ao transporte individual, em detrimento do transporte público e dos deslocamentos não motorizados, que, por exemplo, fez com que o total de trajetos de motos dobrasse e alcançasse 2,6 bilhões de viagens, tem pesado cada vez mais no bolso e na saúde do brasileiro.

O estudo mostra que o transporte individual responde por 80% dos gastos com deslocamentos no Brasil, contando gastos públicos diretos, pessoais e de impactos.

Para reparar os impactos associados a acidentes, o transporte individual causa gastos de R$ 16,3 bilhões por ano, seis vezes mais que o transporte coletivo, cujos  os custos para os impactos são de R$ 2,7 bilhões.

Já para reparar os danos relacionados à poluição, o transporte individual requer R$ 4,6 bilhões por ano e o coletivo R$ 2,5 bilhões. Se houvesse mais investimentos em corredores de ônibus, que aumentam a eficiência dos coletivos, em ônibus elétricos ou com fontes menos poluentes e no sistema de trilhos, essa diferença seria ainda maior.

O crescimento de viagens de moto está nestes dois contextos.  O total de acidentes de motos representou em 2015, 497.009 indenizações do DPVAT (Seguro Obrigatório), contra 124.267 usuários de automóveis e 17.973 usuários de caminhões e picapes.

Levando em conta a capacidade de transporte e a motorização, cada moto polui proporcionalmente 38 vezes mais que um ônibus diesel padrão Euro 5.

As famílias e o poder público gastam muito mais em transporte individual que no transporte coletivo, aponta o levantamento.

Os gastos pessoais dos brasileiros no transporte individual foram de R$ 164,1 bilhões e, no transporte coletivo, de R$ 39,8 bilhões.

Já o poder público, dedicou três vezes mais recursos para manter a política em prol do transporte individual que para oferecer transporte público.

Os gastos públicos foram de R$ 19,3 bilhões para carros e motos continuarem congestionando as vias e poluindo o ar e de R$ 2,7 bilhões para os sistemas de ônibus trens e metrô.

mobilidade urbana

Recebendo prioridade no espaço urbano e com soluções ambientalmente corretas, ônibus tendem a atrair mais passageiros e ampliarem benefícios ao cidadão.

Os automóveis de longe são os que mais poluem no Brasil, aponta o mesmo levantamento, criando uma pressão sobre os custos na saúde pública.

Os carros e motos respondem por 66% das emissões dos gases de efeito estufa nos transportes (60% – carros e 6% – motos) e os ônibus por 35% (25% – ônibus municipais e 5% – ônibus metropolitanos).

Em relação aos poluentes locais, carros e motos respondem por 65% das emissões (59% – carros e 6% motos) e os ônibus, por 35% (20% – ônibus municipais e 15% – ônibus metropolitanos)

Foram consideradas as emissões de CO (monóxido de carbono), HC (hidrocarbonetos), NOx (Óxidos de Nitrogênio), MP (material particulado) e SOx (Óxidos de Enxofre),

NÚMEROS MOSTRAM QUE TRANSPORTES PÚBLICOS NÃO RECEBEM O TRATAMENTO ADEQUADO:

Ao mesmo tempo que os números claramente mostram que o transporte individual causa prejuízos e que o transporte público é parte da solução não apenas para a mobilidade urbana, mas também para a saúde e as finanças do país, o levantamento revela que o transporte coletivo perde passageiros e não recebe os investimentos adequados.

Por causa da crise econômica, o total de viagens feitas pelos brasileiros em um ano caiu de 64,2 bilhões para 64,1 bilhões.

No entanto, a principal queda foi no uso do transporte público: houve 3,8% menos deslocamentos nos ônibus municipais e 2,5 % menos nos sistemas de trilhos – trens e metrô.

A falta de prioridade ao transporte coletivo é medida também pelo tempo de deslocamento.

Das 22,8 bilhões de horas gastas nas viagens em um ano, 48% foram transporte coletivo, 30% nos deslocamentos não motorizados e 22% nos meios individuais.

Em cidades menores, o tempo médio de deslocamento é de 19 minutos, enquanto que nos municípios com mais de um milhão de habitantes, o tempo passou para 55 minutos.

Apesar de transportarem menos pessoas, os carros e motos ocupam a maior parte dos espaços e se beneficiam mais deles, por isso que o tempo de deslocamento no transporte individual é menor, porque é priorizado.

corredor de ônibus

Sistemas de corredores de ônibus bem elaborados priorizam o pedestre, organizam o tráfego e incorporam soluções que agilizam o embarque e desembarque.

As autoridades devem estar atentas em relação à melhoria das condições dos serviços de ônibus e também para expansão dos sistemas de trilhos.

Dos 64,1 bilhões de deslocamentos nas 468 cidades analisadas, 29% foram de transportes coletivos, sendo que desse total, 20% por ônibus municipais, 5% por ônibus metropolitanos e 4% por metrô ou trem.

Os números são claros. Os ônibus são responsáveis pela maior parte do transporte coletivo no Brasil e devem receber atenção.

Assim os sistemas devem ser priorizados nos investimentos e os serviços modernizados, com a implantação de mais corredores que permitam deslocamentos mais rápidos, ao mesmo tempo que o transporte por trilhos, ainda tímido no Brasil, deve ser ampliado.

É importante destacar que o investimento em ônibus não anula o investimento em trilhos.  Na verdade, o que deve haver é a criação de políticas que considerem a formação de redes com os dois modais integrados. Os trilhos atendem a demanda que já não é mais suportada pelo ônibus e o ônibus atende onde não é possível tecnicamente e viável financeiramente implantar trem ou metrô, por apresentar custo menor e mais flexibilidade.

A principal forma de deslocamento no Brasil é por meio não motorizado, o que também é deixado de lado pelas políticas de mobilidade.

De acordo com levantamento, dos 40% dos deslocamentos não motorizados: 36% são a pé e 4% de bicicleta.

calçadas falta acessibilidade

Falta de políticas para a conservação e padronização das calçadas são grandes problemas nos deslocamentos. Cada vez mais os ônibus têm se tornado acessíveis, mas para quem tem alguma limitação, é quase impossível chegar até eles.

Os deslocamentos a pé no Brasil são desconfortáveis, inseguros.

As calçadas apresentam verdadeiros riscos e são inacessíveis para pessoas com mobilidade reduzida. São altos também os custos com saúde pública por causa de acidentes com pessoas que caem em buracos e desníveis em calçadas.

As políticas para a conservação do calçamento são quase inexistentes em cidades dos mais diversos portes.

Além disso, o pedestre não tem prioridade em cruzamentos. O ciclo de semáforo para o verde ao pedestre demora e ainda não há educação suficiente do motorista em dar passagem para quem estar a pé.

A falta de prioridade ao pedestre é tão grande que não há sequer padronização das calçadas, quando elas existem.

Cada um faz sua calçada da maneira que quiser e com desníveis, inclusive para priorizar a entrada do carro na garagem, não se importando se a maneira como foi feita a calçada pode provocar acidentes.

Os dados são claros: Pensar no Pedestre e Investir no Transporte Público é Responsabilidade Fiscal e o que se espera de agentes públicos que devem, sobretudo, pensar no Ser Humano.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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