Até quando o transporte público vai sustentar a perda de demanda?

Três milhões de passageiros deixaram o sistema de transporte por ônibus em um ano. Uma redução de quase 10% da demanda. É três vezes mais do que vinha sendo registrado nos cinco últimos anos. O agravamento poderia ser justificado pela crise econômica que eliminou mais de 11 milhões de postos de emprego no País. No entanto, antes mesmo da crise, o transporte público já vinha perdendo passageiro, o que indica que os problemas são mais complexos. A crise poderia ser menos sentida se houvesse medidas de estímulo ao transporte público e fosse mais justo e democrático o uso do espaço urbano no Brasil. São várias as ideias, para isso e uma delas vem ganhando destaque entre os especialistas e tomadores de decisão: a tributação sobre os modos de deslocamento que mais ocupam a cidade e que menos transportam pessoas. Uma das propostas da Frente Nacional de Prefeitos (FNP), citada pelo prefeito Márcio Lacerda e presidente da Frente, é a criação da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) Municipal para o custeio do transporte público. A ideia busca destinar parte do preço dos combustí- veis consumidos pelos automóveis ao financiamento do transporte público. Hoje, o automóvel ocupa 60% do espaço das vias urbanas onde também circulam ônibus e transporta apenas 20% da população. Já o ônibus ocupa Até quando o transporte público vai sustentar a perda de demanda? 25% e carrega 70% das pessoas. A taxação dos veículos particulares por meio do combustível democratizaria, portanto, o uso do espaço público. Além de ser democrático do ponto de vista do espaço público, esse financiamento beneficia a sociedade em toda a sua cadeia de mobilidade. Isso porque os congestionamentos e poluição devido ao excesso de carros trazem custos diretos e indiretos com a saúde pública, perda de produtividade e necessidade de mais investimentos em infraestrutura para veículos de passeio. Os empresários do ramo também têm consciência das suas responsabilidades – melhorar a qualidade do serviço, oferecer mais opções de transporte seguro, eficiente e de alto desempenho. Mas é preciso entender que não são eles, sozinhos, capazes de inverter a logística concebida para favorecer congestionamentos e a poluição ambiental. Muito menos pela decisão de manter 100% da operação desse sistema de transporte atrelada unicamente aos recursos provenientes da tarifa. A questão está além de culpados e inocentes, de mocinhos e vilões, mas focada na competência e deveres de cada ator desse processo. O tema demanda ações contínuas, que devolvam ao passageiro do transporte público a certeza de que o sistema caminha para se tornar confiável, eficiente e de qualidade. Somente com ações conjuntas podemos recuperar tudo o que foi perdido nas últimas décadas. Inclusive, os passageiros.

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