Novos meios de locomoção são ao mesmo tempo problema e solução urbana

Se antes as soluções de mobilidade passavam por grandes iniciativas do poder público, rearranjos, planos e diretrizes, as novas tecnologias acrescentaram outra dinâmica ao processo.

Novos meios de locomoção como patinetes elétricos , bicicletas compartilhadas e táxis via aplicativo , além de serviços de delivery autônomos, modificaram a mobilidade urbana. Essa nova dinâmica gera conflitos em cidades não preparadas para receber novas demandas por espaço.

Para Pablo Hereñú, coordenador do curso de pós-graduação em Mobilidade e Cidade Contemporânea da Escola da Cidade, a discussão sobre estes conflitos representa os reflexos da busca por novas alternativas que não priorizem o carro e até usos mais inteligentes do automóvel, como os aplicativos de táxi.

“Essas tecnologias estão questionando as cidades, tensionando o espaço urbano para que as acomode. Se a cidade aguentou o automóvel, que foi o modal dominante no século 20, aguenta qualquer coisa”.

Patinetes e bicicletas de aluguel surgem como alternativa para o que os urbanistas chamam de última -ou primeira- milha. São os trechos de curto deslocamento entre a residência e o tronco de transporte público mais próximo, sistema também chamado de micromobilidade.

Especialistas apontam o transporte público como o eixo estruturante de qualquer solução de mobilidade.

“Essas inovações vieram para ficar. Elas modificaram nosso padrão de deslocamento, mas, sozinhas, não resolvem o problema”, diz Guillermo Petzhold, especialista em mobilidade urbana do instituto de pesquisa WRI Brasil.

Epicentro da discussão sobre micromobilidade, os patinetes elétricos foram implementados em São Paulo em agosto de 2018, funcionando no sistema dockless -sem estações físicas.

Reclamações sobre veículos estacionados em locais impróprios, circulação na calçada em alta velocidade e acidentes com usuários levaram a prefeitura a regulamentar o uso, exigindo equipamentos de segurança, aplicando multa para quem andar na calçada e limitando a velocidade.

As regras são provisórias. O município cadastrou as empresas interessadas em oferecer o serviço na capital e deve discutir uma regulação final nos próximos meses.

Em Fortaleza (CE), a regulamentação chegou antes dos patinetes. A prefeitura anunciou regras para o modal em março e a circulação deve começar no segundo semestre.

A discussão é global. San Francisco e Los Angeles, na Califórnia, chegaram a proibir patinetes, mas voltaram atrás com regulamentações que exigem permissão para a operação e limitam o tamanho da frota. Em Los Angeles, é preciso até carteira de motorista para andar de patinete.

Na França, o governo anunciou que vai multar quem circular nas calçadas de todo o país. Cidades como Nova York e Londres proíbem o uso.

A Holanda, país com a maior malha cicloviária do mundo, só permite patinetes particulares, e com autorização do órgão público de mobilidade.

O arquiteto Lucas Girard, especialista em tecnologias digitais e pesquisador da FAU-USP, vê falta de responsabilidade das empresas na operação destes equipamentos. “É muito fácil obter essa licença para inovar, quando se tem o discurso da tecnologia. Você usa o espaço público para testar seus protótipos, mas sem estudar seu impacto”, diz.

Ele também critica empresas de entrega por aplicativo, que introduziram quantidade considerável de ciclistas na cidade. Segundo Girard, entregadores têm compromisso com metas e geração da própria renda, em um trabalho precarizado , o que os leva a praticar velocidades incompatíveis, em sistemas já inchados, gerando conflito entre ciclistas e pedestres.

“Essas empresas fazem da cidade seu campo logístico. Quem oferece estes serviços deve garantir também a governança do espaço público.”

Na outra ponta, as empresas tentam oferecer seus serviços seguindo a lógica da economia criativa, de forma acelerada e contornando os entraves burocráticos.

A Grow, fusão entre a Grin e a Yellow, reúne uma das maiores frotas de patinetes elétricos e bicicletas dockless em São Paulo. A empresa não divulga dados locais. Nos sete países em que atua na América do Sul são mais de 135 mil patinetes e bikes.

Milton Acher, diretor de relações governamentais da Grow, afirma que São Paulo teve a taxa de adesão mais rápida entre as cidades onde a empresa opera e que a expansão segue critérios para minimizar o impacto na cidade.

A empresa já vinha conversando com a prefeitura bem antes da implementação, diz. “Vivemos uma revolução, que ajuda a reduzir o uso dos carros. Para que o patinete seja seguro, é preciso esforço de todos com mais ciclovias, menos velocidade dos carros, mais orientação por parte de empresas e mais cuidado por parte dos usuários.”

A Grow diz realizar estudos para determinar o número máximo de equipamentos na área de cobertura e os impactos nas novas operações.

Acher defende a modernização da legislação, para abarcar novos formatos de negócio. “Os modelos de concessão atuais não são mais adequados, o mercado é mais dinâmico. Não faz sentido esse serviço ficar atado a um contrato de 15 anos, por exemplo.”

Para Petzhold, da WRI, as inovações ainda estão em testes, sujeitas até ao fracasso. “Modais e modelos de negócio estão em construção”.

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